AQUELE CARNAVAL QUE PASSOU

AQUELE CARNAVAL QUE PASSOU

Miguel Lucena*

Nonato decretou feriado no açougue que mantém há anos na 411 Sul, em Brasília,  faltando um dia para o grito do Zé Pereira marcado para 12 de fevereiro de 1999, no Bar do Osmar, o mais famoso da área. João, o assistente, foi dispensado para fazer sua própria festa na Adega do Sitônio, na Avenida Central do Paranoá.
– Carne, só de gente! – gritou Nonato, iniciando a farra, às 17h do dia 11, no depósito de bebidas do Araújo, na esquina próxima do BRB e em frente à atual choperia Resenha. Lá, já estavam no esquenta Marcelo da Cia, Ferraz do Consórcio (que Deus o tenha), Miguelzinho Peruano, Dentinho (que Deus também o tenha), Alex Traback, Serjão e Gero.
O grupo misturou cachaça, cerveja e licor até as 23h, quando Nonato convidou os amigos para dar uma passada no Beirute da 109 Sul. Comendo um quibe, ele iniciou uma discussão com um gay sobre se a homossexualidade era uma opção ou uma condição biológica. “O cabra já nasce fresco”, insistia, com ar de autoridade no assunto.
Ainda no Beirute, Nonato discutiu Física com a professora Gláucia, doutora no assunto. “Tudo é relativo quando é nos olhos dos outros. Quando o fumo vem para o nosso lado, não tem nada de relativo”, argumentava.
Na boate Star Night, onde se encontrou com André Cicarelli, dispensou uma universitária que fazia programa eventual e o chamou de lindo. “Lindo é o meu dinheiro!”, respondeu, deixando a moça chocada.
A turma amanheceu o dia no Clube dos Delegados, assando uma manta de carne levada do açougue de Nonato. Eles tomaram banho de ducha e beberam cachaça até as 4h da tarde, quando então rumaram para o Zé Pereira do Bar do Osmar.
O combinado era ir de máscara, mas ninguém da turma, já com a vista embaçada, ligou para isso. Um deles se atracou com uma moça cheirosa, por quem ficou apaixonado e só se desapaixonou quando soube, 24 horas depois, que a musa da festa era Sabrina, viúva pela terceira vez em menos de 10 anos.
Nonato se arranjou com uma morena alta, esbelta, voz macia, que não tirou a máscara em nenhum momento. Lá pela meia-noite, ela o convidou para dar um passeio sem rumo e direção. Subiram abraçados pelas quadras 200, passaram para as 100, cruzaram as 300, as 500, as 700 e 900, parando na Legião da Boa Vontade.
– Ali, do lado esquerdo, é o Mercado das Flores – disse ela, completando: – À direita, fica a eterna morada de todos nós – e apontou para o Cemitério Campo da Esperança.
Nonato, curioso, perguntou-lhe:
– Tu num tem medo de alma, não?
– Quando eu era viva, tinha – respondeu a moça, sumindo na escuridão do cerrado.
Desse dia em diante, Nonato nunca mais bebeu.

*Miguel Lucena é Delegado de Polícia Civil do DF, jornalista e escritor

 

 

 

Reprodução de imagem da internet : pintura Di Cavalcanti

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