Maria José Rocha Lima

Sobre crianças, andei lendo na internet comentários tão lúcidos acerca desses serezinhos que me emocionei. A internauta, autora desconhecida, dizia que as crianças ainda não estão preparadas para elaborar determinadas vivências. Por exemplo, assumir culpas que não lhes cabem. Até me lembrei de um filme que assisti na juventude, Cría Cuervos, de Carlos Saura, que me deixou impressionada por toda a vida. Nele, havia uma criança angustiada com o padecimento da sua avó, e lhe dá um placebo. Talvez, água com o açúcar, nem me lembro, e coincidentemente a velhinha morre, fazendo com que a criança carregasse para o resto da vida o sentimento de tê-la matado.
Hoje, provocada pelos comentários da internauta desconhecida, li a crítica do filme Cría Cuervos (1973), escrita no Blog Plano Crítico, por um acadêmico de letras, Guilherme Almeida (2018). Almeida retoma a visão contrária de Saura da infância inocente e feliz. E faz muito bem, afirmando: “Infância como período largo, interminável, triste, onde o medo domina tudo, medo do desconhecido; nada do paraíso infantil que volta e meia cantam os poetas, nem da inocência, nem da suposta bondade das crianças. Fase de formação e deformação da personalidade, cheia de conflitos, traumas, transtornos, frustrações, dores, descobertas inquietantes, desejos inconfessáveis”. O prêmio Nobel James Heckman realizou um estudo de caso sobre a importância dos primeiros anos de vida das crianças, evidenciando “serem um período crítico para a formação de habilidades e capacidades e serem determinantes para os resultados do ciclo de vida”.
Temos de ter muito cuidado com as crianças pequenas.  Isto porque se nessa fase elas constroem muitas habilidades, realizam muitas conexões neurais favoráveis às aprendizagens, como nos ensinam os neurocientistas, por outro realizam muitas fantasias, inclusive de abandonos,  se sentem responsáveis pela infelicidade dos pais, se sentem desprotegidas. Esta última característica não é apenas das crianças, mas do ser humano, embora esse sentimento possa ser agravado num lar violento, desassossegado por discussões e brigas constantes.
Mary Young, pós-doutora e consultora sênior do Centro de Desenvolvimento da Criança da Universidade de Harvard, nos alerta para “o poderoso papel da vida familiar e dos primeiros anos de vida na configuração das capacidades dos adultos.” Assim, podem se tornar mulheres e homens inseguros, paranoicos e covardes pela vida afora.
Criança precisa ser amada. Amem os seus filhos, em lugar de oferecer computadores e smartphones de última geração, viagens ao mundo fantástico da Disney, modelitos de artistas de cinema. Simplesmente, ame-as. Deus livre crianças de pais infantis, como elas.

 Maria José Rocha Lima é mestre e doutoranda em educação. Foi deputada da Bahia de 1991 a 1999. É fundadora da Casa da Educação Anísio Teixeira.

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